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22 fevereiro 2014

Mãezinha | António Gedeão





A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação concreta e exacta
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, nessa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas, havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
cinco morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.


[António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, 1906-1997]

[Vídeo - Um Poema por Semana | Ideia - Paula Moura Pinheiro >>> | Voz - Vítor D'Andrade | RTP2, 2011]


06 novembro 2013

Aniversário | Sophia de Mello Breyner Andresen | 6 de Novembro de 1919




Há noventa e cinco anos nascia no Porto uma menina de nome Sophia.
Era filha de Maria Amélia de Mello Breyner e de João Henrique Andresen e bisneta de Jan Henrik Andresen, um dinamarquês nascido em 1826 que queria ser capitão de um navio e que, ainda jovem, chegou ao Porto num veleiro que entrou pelo Douro de águas esverdeadas.
De Sophia conheces certamente uma parte, por pequena que seja, da obra que escreveu: vários dos seus poemas habitam este blogue e a maior parte dos seus contos mora nas nossas bibliotecas.
Temos a certeza de que alguns dos títulos das suas obras te são familiares: A Menina do Mar? A Fada Oriana? O Cavaleiro da Dinamarca? Saga? A Noite de Natal? A Árvore?...

Para celebrar esta data, deixamos-te um documentário que um cineasta português, João César Monteiro, fez sobre a escritora no ano de 1969. Nele poderás vê-la e ouvi-la, por exemplo, ler em voz alta o final de A Menina do Mar a Xavier, um dos seus filhos [começa aos dois minutos e acaba aos quatro minutos e quinze segundos].

Feliz aniversário, Sophia!


13 maio 2013

Meditação do Duque de Gandia sobre a Morte de Isabel de Portugal | Sophia de Mello Breyner Andresen







Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.


[Sophia de Mello Breyner Andresen, 1919-2004]



[Vídeo: Um Poema por Semana | Ideia - Paula Moura Pinheiro  >>> | Voz - Rita Loureiro | RTP2, 2011]




02 maio 2013

Espuma | Afonso Lopes Vieira



Mais leve que a pluma
que no ar balança,
pela praia dança
a ligeira espuma.
Dançando se afaga
no alado bailar!
Pétalas da vaga,
poeira do mar…

Espuma de neve,
ergue-a num momento
a curiosa e leve,
vaga mão do vento.
Mas o vento, achando
que da mão lhe escorre,
com ela brincando
pela praia corre…

Eis se ergue e dissolve,
coisa láctea e pura,
onde o luar se envolve
na fervente alvura.
Espuma levada
das águas ao rés,
renda evaporada,
jóia das marés!

Mais leve que a pluma
que no ar ondeia,
pela fina areia
baila, aérea, a espuma.

E na dança etérea,
que implacável ronda!
Bafo da matéria,
penugem da onda…

Afonso Lopes Vieira
[Portugal, 1878 - 1946]


25 abril 2013

25 de Abril de 1974 | Uma canção




GRÂNDOLA, VILA MORENA

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


[Canção: Grândola, Vila Morena, José Afonso, 1929-1987 | Gravação em concerto: 29 de Janeiro de 1983, Coliseu de Lisboa | >>>  e  >>> ]