«Os Contadores de Encantar» do JI da
Junqueira obtiveram um prémio nacional na edição 2012-2013 do concurso nacional
Conta-nos
uma história: o 3.º lugar na modalidade «Histórias em formato áudio» e na
categoria Educação Pré-escolar. >>>
E que história escolheram os Contadores
para encantarem quem os ouviu?
Leituras
| Alberto Caeiro, [Ao entardecer, debruçado pela janela,] | Lê Abílio Santos
Ao entardecer, debruçado pela janela, E sabendo de soslaio que há campos em frente, Leio até me arderem os olhos O livro de Cesário Verde. Que pena que tenho dele! Ele era um camponês Que andava preso em liberdade pela cidade. Mas o modo como olhava para as casas, E o modo como reparava nas ruas, E a maneira como dava pelas coisas, É o de quem olha para árvores, E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando E anda a reparar nas flores que há pelos campos... Por isso ele tinha aquela grande tristeza Que ele nunca disse que tinha, Mas andava na cidade como quem anda no campo E triste como esmagar flores em livros E pôr plantas em jarros...
Leituras | A Mãe, Máximo Gorki | Lê Abílio Santos Uma noite, após o jantar, depois de correr as cortinas das janelas, Pavel sentou-se num canto e pôs-se a ler, com o candeeiro de petróleo suspenso na parede, por cima da cabeça. A mãe, depois de lavar a louça, saiu da cozinha e aproximou-se com o passo hesitante. Ele levantou a cabeça e olhou-a com ar de interrogação. - Não é nada, Pavel... Sou eu - disse ela - e afastou-se vivamente, com a testa enrugada e um ar de confusão. Ficou um momento imóvel, no meio da cozinha, pensativa, preocupada; lavou as mãos cuidadosamente e voltou para junto do filho. - Queria-te perguntar - disse, baixinho - o que é que estás sempre a ler? Ele pousou o livro. - Senta-te, mãe. Sentou-se pesadamente ao lado dele e endireitou-se, atenta a qualquer coisa de grave. Em voz baixa, sem a olhar, adoptando, não se sabe porquê, um tom rude, Pavel começou a falar. - Leio livros proibidos. Proíbem de os ler, porque dizem a verdade sobre a nossa vida de operários... São impressos clandestinamente, e se os encontrarem cá em casa metem-me na prisão... na prisão por eu querer saber a verdade. Estás a compreender? Ela sentiu subitamente dificuldade em respirar e fixou no filho um olhar espantado. Pareceu-lhe mudado, estranho. Tinha uma voz diferente, mais baixa e mais cheia, mais sonora. Torcia, com os dedos afilados, o pêlo fino dos bigodes de adolescente, e o olhar estranho, sob as pestanas, perdia-se no vago. O medo e a inquietação pelo filho penetraram-na. - Porque fazes isso, Pavel? - murmurou. Ele ergueu a cabeça, olhou-a rapidamente, e sem levantar a voz, tranquilamente, respondeu: - Quero saber a verdade.
Leituras | Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens | Lê Abílio Santos
[...] Para entreter curiosidades, o velho Alfredo
oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a
saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa
doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um
não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a
matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado
dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor
doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me
preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê
urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas
semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que
era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o
esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o
pequeno Camilo sentia-se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas
abstractas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o
Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe
o tecto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom
livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas
de colesterol e de uma casa com o tecto seguro. Parecia uma ideia com muita
justiça. [...]
Leituras | John Steinbeck, A Pérola | Lê Abílio Santos
[...] Mas
a música da pérola vibrava triunfantemente dentro de Kino. Juana ergueu os olhos
para ele e os seus olhos abriram-se diante da coragem de Kino e da sua
imaginação. Tinha-o penetrado uma energia electrizante, agora que derrubara os
horizontes. Na pérola via Coyotito sentado a uma carteira numa escola como a
que Kino tinha visto um dia através de uma porta aberta. E Coyotito tinha um
casaco vestido, e um colarinho branco e uma larga gravata de seda. Além disso,
Coyotito estava a escrever numa grande folha de papel. Kino olhou para os
vizinhos, orgulhosamente:
-
O meu filho há-de ir à escola - disse, e fez-se silêncio entre os vizinhos.
Juana conteve a respiração. Os seus olhos brilhavam ao fitá-lo, e baixou
rapidamente o olhar para Coyotito, para ver se aquilo seria possível.
Mas
a profecia brilhava no rosto de Kino.
-
O meu filho há-de ler e abrir os livros, e o meu filho há-de escrever e
conhecer a escrita. E o meu filho há-de fazer números, e essas coisas hão-de
libertar-nos, porque ele há-de saber, há-de saber e nós havemos de saber
através dele.
E
na pérola Kino viu-se a si próprio e a Juana acocorados junto do fogo, dentro
da cabana, enquanto Coyotito lia um grande livro. [...]
Leituras
| Ray Bradbury, Fahrenheit 451 | Lê Abílio Santos
[...] Na
penumbra, uma página abriu-se, como uma pluma de neve, as palavras
delicadamente traçadas na superfície branca. Na confusão, Montag apenas teve um
segundo para ler uma linha, mas essa linha brilhou no seu espírito durante todo
o minuto seguinte, como marcada a ferro em brasa: «O tempo adormeceu sob o sol
da tarde». Largou o livro. Imediatamente um outro lhe caiu nos braços. [...]